Em
2020, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) pode deixar as ruas para
acontecer apenas em ambiente digital

Por
Débs Monteiro *

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Intervenção artística do Sesc ao ar livre durante a Flip  
(foto Tomaz Silva/Agência Brasil)

Desde
2003, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) transforma a paisagem da
cidade de Paraty, declarada Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco. Nos
cinco dias do evento, as ruas da região do Centro Histórico passam a ser espaço de
celebração para a literatura e outras artes: o burburinho do público substitui
o silêncio do cotidiano e a programação intensa oferece a oportunidade do
diálogo entre os convidados e o encontro com o público. É um momento de festejar
a reflexão e o debate de ideias com respeito à diversidade, além de consolidar
a ocupação do espaço público com cultura.

A 18.ª
edição da Flip tem como autora homenageada a escritora Elizabeth Bishop
(1911-1979) e estava marcada para acontecer entre os dias 29 de julho e 02 de
agosto de 2020. Porém, a história do evento começou a mudar quando em 11 de março
a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou a pandemia da Covid-19.
Imediatamente os organizadores da Flip se prepararam para acompanhar as
incertezas dos tempos excepcionais em que vivemos, com a necessidade de
cumprirmos o isolamento social e as dúvidas quanto às perspectivas para a
realização de eventos, festas e festivais que motivem a aglomeração de pessoas. 

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Mauro Munhoz, diretor da Flip
(foto Tomaz Silva/Agencia Brasil)

Mauro Munhoz, diretor artístico da Flip, conta que no primeiro momento lidou
com o sentimento de perplexidade em relação à gravidade das implicações gerais
associadas à pandemia. 

“Mesmo com todo o avanço para a atuação em rede, o mundo
percebeu que não está preparado para enfrentar uma epidemia como essa, e os
desdobramentos, principalmente nas áreas da saúde e da economia, apresentam uma
complexidade desafiadora, com um conjunto de variáveis não inteiramente
absorvido até agora”, comenta Mauro Munhoz.

A
percepção do cenário de crise com a ameaça do coronavírus a nível global exigiu
providências. No dia 23 de março, foi anunciado o adiamento da Flip para
novembro.

“O programa principal já estava em boa parte definido, em negociações
avançadas com autores convidados, parceiros, apoiadores, fornecedores, equipe”,
conta Mauro. “Não foi uma decisão fácil, levando em consideração a importância
que a Flip assumiu, ao longo do tempo, para o cenário cultural brasileiro e
para a dinâmica sociocultural de Paraty”, complementa. 

Por isso, aumenta a expectativa
quanto à data estabelecida para a realização da Flip, que ainda não está
definida. 

“É uma decisão complexa que depende das articulações que a Flip
estabelece com a prefeitura e a comunidade”, afirma Mauro.

Na
eventualidade do contexto não permitir a realização da Flip presencial, é
possível que neste ano o público seja convidado a participar de uma edição
totalmente online. 

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Público acompanha uma das mesas durante a Flip
(foto Fernando Frazão/ Agência Brasil)

“O inevitável adiamento de julho para novembro nos obrigou a
um novo planejamento para migrar ao espaço virtual, com uma programação online
em que estamos trabalhando agora para ser anunciada em breve”, revela Mauro.

Para
ele a “nova normalidade” se desenhará naturalmente. 

“Como resultado da leitura
do mundo neste momento, será uma Flip híbrida, física e virtual nas proporções
que a realidade permitir, mas seja em que dimensão for, seu DNA será
preservado, valorizando a literatura e as artes como meio para refletir e
debater os desafios que o mundo enfrenta”.

O
diretor artístico da Flip acredita que, no Brasil, nós teremos a chance de
aprender uns com os outros em iniciativas como a Global
Association of Literary Festivals
, associação da qual a Flip faz parte como
sócia-fundadora. Criada no início do ano como um fórum para conectar todos os festivais
de literatura do mundo, a Global Association of Literary Festivals vai funcionar
promovendo o intercâmbio de iniciativas e a cooperação internacional no
segmento, criando a oportunidade dos diferentes festivais compartilharem suas
práticas e explorarem parcerias. 

Para Mauro Munhoz, a natureza da Flip pode
agregar na compreensão do momento atual justamente porque seu desenho foi
inspirado na observação de como os paratienses se relacionaram com as
expressões artísticas, bem como com os diferentes períodos que marcam a
História de Paraty. 

“A primeira leva de artistas chegou em Paraty nos anos 60,
entre eles Maria Della Costa, Sandro Polloni, Themilton Tavares, Hélio Braga,
Paulo Autran, Fábio Villaboim, Djanira e outros nomes das artes e das letras, e
houve umatroca muito rica durante duas décadas, que reativou a sua tradição de
séculos como fértil lugar de encontro de uma forte
cultura local com o que vem de fora”. 

Além disso, Mauro lembra o ciclo do
tráfico de escravos, o ciclo do ouro, o ciclo do café e agora o ciclo das
trocas culturais e da valorização da cultura que brota das comunidades. “Em
parceria com as comunidades locais, a Flip busca criar um ambiente propício às
trocas, na tradição histórica da cidade como entreposto”. 

Mauro enfatiza que a
Flip continuará sendo uma manifestação cultural que ativa o espaço público,
reverberando vozes locais e internacionais, mostrando a importância da cultura
no fortalecimento da democracia e da liberdade de expressão com os conflitos e
contradições que caracterizam o coletivo.

Caso
seja viável acontecer de maneira presencial, aproveitando as potencialidades do
espaço físico de Paraty, Mauro assegura que a Flip encontrará seu novo modelo a
partir da leitura do território e das circunstâncias. 

“Vale lembrar que já
ocupamos a Casa de Cultura de Paraty e a Igreja da Matriz sem as tendas como as
conhecemos hoje, e elas já foram instaladas em outro formato, na margem esquerda
do rio Perequê-Açu, uma ocupação que contribuiu para revitalizar
urbanisticamente aquela área a partir das experiências que a Flip ajudou a
estabelecer ali”, menciona Mauro. 

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Atividades da Flip na Praça da Matriz
(foto Débs Monteiro)

Na edição de 2019, a arquitetura da Flip consolidou a Praça Aberta, localizada no Areal do Pontal, onde parceiros da Flip
ofereceram programação variada ao público e os coletivos e movimentos
comunitários da região de Paraty promoveram ações de agroecologia e economia
solidária com artesãos, agricultores, artistas e ativistas. No mesmo local as
pessoas podiam embarcar no Barco Educativo, transporte gratuito para a
Biblioteca Comunitária Casa Azul, eixo central do Programa Educativo da Flip,
que vem expandindo suas atividades ao longo dos anos. 

Fundada em 2005, a biblioteca
localizada no bairro da Ilha das Cobras tem quase 18 mil livros em seu acervo e
oferece programação gratuita para a formação de leitores e o apoio aos
professores da rede pública de Paraty. 

“Quando falamos em leitura do
território, nos referimos 
a isso: que relação virtuosa podemos estabelecer com
a cidade de forma a beneficiar o espaço público e suas forças vivas?”,
questiona Mauro. “É o que temos feito edição a edição desde o início”. 

Mauro
celebra que os parceiros da Flip tenham esse entendimento do papel fundamental da
cultura no estabelecimento de novos caminhos para mediar a relação das pessoas
com o mundo real. O diretor artístico acredita que o futuro não é possível sem
a subjetividade. 

“No plano das artes as subjetividades se legitimam, e a objetividade
sozinha não dará conta dos grandes desafios que temos pela frente”, finaliza.

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* Débs Monteiro é jornalista e trabalha como educadora social em projetos de audiovisual e comunicação.

 

 

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