Por Luana Dias

Luana e Mario Dias Foto Paulo Bittencourt Uma breve carta de uma filha sobre o seu Pai
Luana e Mario Dias – Foto Paulo Bittencourt

Caros leitores do “Casa da Gente”: peço licença a vocês para escrever hoje – não como editora deste jornal, que se despede de Mario Dias, fundador e conselheiro editorial – mas como a filha que acaba de perder o seu pai.  

Na madrugada de sábado de carnaval deste fatídico 2021 sem folia, dei a luz à Charlotte (ou melhor, ela me “deu” a sua luz). Foram 21h de trabalho de parto, onde me senti conectada com a força de meus ancestrais, concentrando todas as minhas energias naquele rito de passagem, de filha à mãe. 

Passagem de tempo. Corta para a manhã de domingo do dia 21 de março, onde sentada no sofá da minha sala, amamentava pela terceira vez no dia a minha “pequena”, e lia o livro “60 dias de neblina” de Rafaela Carvalho. Num determinado trecho, a escritora fala sobre o mais valioso presente que os pais podem oferecer aos seus filhos: o convívio. 

Em lágrimas, fechei o livro. Estava ali, naquelas poucas palavras, o que meu pai representa/representou pra mim: presença. 

Não tem um momento de alegria ou tristeza da minha vida que eu consiga pensar em que meu pai não estivesse por perto. Do colo na rede às minhas intermináveis noites de insônia na infância, onde assistíamos ao Jô Soares, com papai sentado numa cadeira de praia pra poder deixar o “conforto” do único sofá da nossa casa pra mim. Na porta da escola, aguardando eu entrar, ou na maratona de cursar duas Universidades, quando precisava ficar até 1h da manhã e não haveria mais transporte público para retornar para casa. Na quadra das escolas de Samba ou escondida atrás da bancada do Botequim do Samba, na Sapucaí, por enquanto acontecia a transmissão ao vivo da extinta TV Manchete, onde meu pai era o produtor geral. No Maracanã para ver o nosso Botafogo jogar ou na procissão de São Jorge. Em qualquer lugar que fosse, papai sempre dava um jeitinho de me levar junto.

Como o mestre Paulinho da Viola, meu pai sabia que o tempo é hoje, e não dá pra contar com o amanhã. E assim, tivemos intensas experiências juntos.

Luana e Mario no Carnaval 2020 Uma breve carta de uma filha sobre o seu Pai
Luana e Mario – Carnaval 2020

Posso dizer que parte do meu processo de escolher o jornalismo como profissão  aconteceu graças a esta convivência. Aos 8 anos, ganhei minha primeira máquina de escrever das mãos de meu pai. Aos 10, fui promovida à “copydesk” do seu primeiro livro, “Malditos Repórteres de Polícia”; aos 12, frequentava encontros e debates de jornalistas junto com ele; aos 14, escrevia minha primeira coluna. Quando vi, lá estava eu, buscando meus caminhos próprios, mas com meu pai me acompanhando e vibrando, mesmo à distância, a cada descoberta ou conquista. 

Com o passar do tempo, essa “roda” foi girando ao contrário: nos últimos anos, com papai já lutando contra sucessivas doenças, era a minha vez de”levá-lo” comigo pra onde fosse: teatro, festivais de cinema, praia, clube, rodas de samba, coletivas de imprensa. E assim, a gente não perdia – e aproveitava até onde fosse possível – a companhia um do outro.

Ainda no livro “60 dias de Neblina”, a autora nos lembra que é exatamente no convívio do cotidiano que reside o Amor. E também é lá onde residirá também a Saudade. Talvez seja por isso que essa leitura tenha me tocado tanto naquela manhã de domingo, dia 21 de março, quando papai entrava na sua segunda cirurgia por conta de um tumor no intestino, e que infelizmente, após complicações, veio a ocasionar o seu falecimento, no dia 24 de março. 

Meu coração ainda sente o enorme vazio que a ausência física de meu pai deixa, mas na certeza de que ele segue como meu eterno companheiro. Só que agora dentro de mim.

P.S.: A propósito: Pai, sua neta Charlotte está cochilando ao meu lado, enquanto escrevo este artigo/carta. E assim, não só aprendemos, mas colocamos em prática a lição. 

Te amo ao infinito, Pai.