Por Christian
Jafas
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curtasolar3 Cineclubes de Niterói: uma tradição que resiste ao tempo
Curta Solar: cinema no Solar do Jambeiro
(foto divulgação)
Niterói Cidade
do Audiovisual. Esse é o nome do projeto desenvolvido pela Prefeitura de
Niterói, através da Secretaria Municipal das Culturas e da Fundação de Arte de
Niterói (FAN), em parceria com a Agência Nacional do Cinema (Ancine), e lançado
em abril deste ano com o objetivo de posicionar o município como um polo
cinematográfico. Nada mais justo com a cidade que abriga o mais antigo curso de
cinema do Brasil, criado em 1968 pelo mestre Nelson Pereira dos Santos e que
acaba de completar 50 anos. Niterói comemora também os 50 anos do Cine Arte
UFF, inaugurado pelo próprio Nelson em 12 de setembro de 1968, e que hoje pode
ser considerado o único cinema de rua da cidade. O contraponto a esse momento
de efervescência está bem próximo do aniversariante. O famoso Cine Icaraí, um
senhor de 73 anos, segue fechado desde 2006 e sem previsão de reabertura.

Seguindo a
tendência nacional, os cinemas de Niterói se concentram em três complexos
cinematográficos, sendo dois localizados em shopping centers e com programação
quase que exclusivamente estrangeira. Levantamento realizado em 2010 pela
Ancine mostra que das 269 salas de cinema em atividade no estado do Rio de
Janeiro, apenas 65 se localizavam fora de shoppings. Nesse cenário, o
investimento de R$ 6 milhões que será disponibilizado pelo projeto Niterói
Cidade do Audiovisual pode ser um passo importante para a formação de um
público mais eclético do que o usual frequentador de shopping e consumidor dos
blockbusters norte-americanos. Parte do investimento será destinado a projetos
que visem a manutenção dos cineclubes, a projeções em espaços urbanos e
realização de mostras e festivais de cinema.
O leitor mais
atento pode estranhar a palavra ‘manutenção’ no lugar de ‘criação’, mas é isso
mesmo: Niterói já possui cineclubes em atividade! E não é só isso. A cidade tem
uma antiga tradição de sediar cineclubes e debates. Em “Viver cinema”,
biografia do cineasta Walter Lima Júnior, o crítico Carlos Alberto Mattos relembra
a fundação do Clube Fluminense de Cinema, em outubro de 1956, com a exibição de
“O vagabundo”, de Charles Chaplin. Antes de se tornar um cineasta consagrado, o
próprio Walter foi curador do cineclube ajudando a organizar diversas mostras e
debates, incluindo uma exibição de “Rio 40 graus” com a presença de Nelson
Pereira dos Santos.
Herdeiros dessa
tradição, os produtores Ivan de Angelis e Miguel Vasconcellos acreditam que
ainda exista espaço para os cineclubes em Niterói. “Os cineclubes são
fundamentais no sentido de criarmos um espaço coletivo, popular e com filmes
que não sejam de super-heróis. O problema dos cinemas de shoppings é que eles
querem apenas ganhar dinheiro e, por isso, 80 a 90% de sua programação é
composta de filmes chamados ‘pipocas’. O cinema de reflexão fica de fora. Os
cineclubes suprem essa carência”, afirma Ivan que atualmente
é o coordenador da Niterói Filmes, selo da Secretaria de Cultura de Niterói, que
realiza o Curta Solar.
Idealizado em
2014 para ser uma janela de exibição dos curtas-metragens niteroienses, hoje o
Curta Solar recebe filmes de todo o país. A próxima edição do cineclube,
sediado no belo casarão do Solar do Jambeiro, no Ingá, será na próxima quinta,
dia 20 de setembro, e a programação já está disponível na internet. “O Curta Solar
atrai um público majoritariamente jovem. Muitos diretores fazem suas estreias
no cineclube e trazem a equipe do filme, além de amigos e familiares. Com um
trabalho de divulgação e com uma programação de qualidade, o público comparece
e pode aumentar. Um projeto que inicialmente era direcionado a Niterói e ao Rio
de Janeiro, hoje recebe filmes do Brasil todo. É o poder das redes”, afirma
Ivan de Angelis.

Cine2BNikiti Cineclubes de Niterói: uma tradição que resiste ao tempo
Cine Nikiti
(foto divulgação)
Produtor e
diretor, Ivan sabe da importância do cineclube como espaço de reflexão, não só
para o cineasta iniciante, mas também para o público que tem a experiência de debater
os filmes com os realizadores. O produtor Miguel
Vasconcellos segue à risca esse pensamento e tem fôlego para organizar três
cineclubes na cidade. “O primeiro
cineclube produzido pelo NuCiNi – Núcleo de Cinema e Educação de Niterói, o
Cine Música, surgiu da necessidade de conversar sobre cinema e juntar as
pessoas. Ele acontecia na pequena sala de cinema no prédio do Núcleo de
Produção Digital (NPD), no centro da cidade. Logo depois fomos convidados pelo
Pablo do Pão, produtor do Solar do Jambeiro, para produzirmos um cineclube no
local e daí surgiu o Cine Nikiti”, conta.
Com sessões
sempre na terceira quarta-feira de cada mês, o cineclube prepara a exibição de
setembro com o documentário “Construindo Pontes”, de Heloisa Passos, na quarta,
dia 19, às 19h, com entrada gratuita e debate após a exibição do filme. Miguel ainda
organiza as sessões do Cine Popular, uma parceria com o Teatro Popular Oscar
Niemeyer, onde os filmes são projetados no paredão externo do teatro, e o Cine
República, uma parceria com a Biblioteca Parque de Niterói. “O perfil de
público varia de cineclube para cineclube, geralmente é jovem no Cine Nikiti e no
Cine Popular, e mais idoso no Cine República. A parcela de público feminino é
maior do que o masculino em nossos cineclubes”, revela Miguel.
Curiosamente
tanto Ivan quanto Miguel apostam na internet para atrair o público com
divulgação nas redes sociais, onde os cineclubes possuem páginas e organizam os
eventos. É a tecnologia virtual ajudando a manter viva uma tradição que começou
no distante outubro de 1956 com o Clube Fluminense de Cinema. Faça parte dessa
história. O cinema agradece!
Para ficar por
dentro da programação dos cineclubes:
* Cineasta e jornalista, Christian Jafas escreve
sobre cinema desde 2002 quando criou o blog “Imagem em Movimento”. Já atuou
como crítico do site Almanaque Virtual participando da cobertura do Festival do
Rio. Dirigiu o documentário “Cine Paissandu: histórias de uma geração” sobre o
lendário cinema que formou a Geração Paissandu nos anos 60 e marco de
resistência contra a ditadura.