Documentário
português acompanha com ironia as recentes mudanças na paisagem urbana lisboeta
decorrentes do crescimento do turismo



Por Cristiana Giustino*
(de Lisboa, especial para o CASA DA GENTE)

Foto2B1 Lisboa e turismo, uma relação em crise

Rooftop de turistas no doc AlisUbbo (foto divulgação)

Sob
intenso nevoeiro, pouco a pouco um transatlântico engole o horizonte da cidade.
Um balé de gruas de construção emoldura esta que é a primeira cena de
Alis Ubbo (2018), documentário de Paulo
Abreu que teve sua estreia mundial no DocLisboa, festival internacional de documentários.
No filme (cujo título em fenício significa porto seguro)somos apresentados à
cidade de Lisboa e sua história através dos audioguias e dos relatos de um
desiludido condutor de
tuk tuk,
cicerone do espectador pelas ruas do centro histórico. Estas fontes de
informação, meio duvidosas e por vezes contraditórias, contribuem para a
atmosfera de ironia e distopia que o diretor imprime na sua obra.


Mais
certas são as informações transmitidas pela fictícia Rádio Tuk Tuk, escutada
diariamente pelo protagonista do documentário. “Há 9 turistas para cada
habitante da cidade”, informa o locutor da rádio. De fato, segundo o Instituto
de Planeamento e Desenvolvimento do Turismo (IPDT), nos últimos anos, o número médio
de turistas que visitam Lisboa anualmente é de 4,5 milhões, número nove vezes
superior ao número de moradores, que é de 504 mil. Em Barcelona, o número de
turistas é cinco vezes superior ao de moradores, e em Londres, quatro vezes
maior do que o número de residentes.

A Rádio Tuk Tuk de Alis Ubbo contribui à narração do documentário


Também
vem da Rádio Tuk Tuk a informação de que já chega a 34% o percentual de imóveis
do centro ocupados por estrangeiros. Ou seja, mais de 1/3 das casas do centro
histórico de Lisboa são utilizadas como residência temporária de turistas.O
dado, cuja fonte é o Jornal de Negócios, abrange moradias de bairros como
Alfama, Mouraria, Castelo, Baixa e Chiado.



Os
brasileiros têm contribuído para esta realidade. O número de turistas provenientes
do Brasil que visitaram Portugal em 2017 é de quase 870 mil, um recorde, com
crescimento de 39% face ao ano de 2016, ficando atrás apenas do número de
visitantes do Reino Unido, Alemanha, Espanha e França. Parte considerável dos
brasileiros tem como destino a cidade de Lisboa, contribuindo à média de 4,5
milhões de visitantes ao ano.

“Não
tenho nada contra o turismo”, disse o diretor Paulo Abreu na sessão première do seu filme, ocorrida dia 20 de outubro. Mas ratifica a impressão, recorrente
entre seus conterrâneos, de que a população local têm sido expulsa de sua
própria cidade. O filme é um reflexo, poético, da “discussão de relação” que os
lisboetas vêm travando com instituições públicas que deveriam regulamentar
práticas abusivas de hospedagem e controlar a especulação imobiliária.


O
turismo, comumente relacionado ao desenvolvimento local, promotor de aumento de
renda e emprego, tem também seus efeitos colaterais: infraestruturas
sobrecarregadas, impactos negativos sobre a natureza, ameaças à herança
cultural e habitantes empurrados para fora das cidades. Segundo o Conselho
Mundial de Viagens e Turismo (WTTC, na sigla em inglês), Lisboa está entre as
cidades onde os serviços públicos estão mais pressionados e a gentrificação,
comum nesses casos, também tem se ampliado.



Ninguém
nega que o turismo foi essencial para a retomada do crescimento econômico da
cidade após a crise de 2008. Porém, as estratégias de fomento ao turismo adotadas
em nível governamental, estimulando investimentos estrangeiros no centro
histórico, vêm contribuindo para desequilíbrios na ocupação do tecido urbano.

Os
mais atentos, ao caminharem pelas freguesias centrais da cidade, podem perceber
uma imobiliária a cada esquina com anúncios de imóveis para compra e aluguel em
suas fachadas. Por outro lado, há prédios inteiros, reabilitados e em
excelentes condições de habitação, que se encontram fechados, dando sinais de
que há uma bolha imobiliária prestes a explodir.


morar2Bem2Blisboa Lisboa e turismo, uma relação em crise

Protesto do movimento “Morar em Lisboa”, 

realizado em abril de 2017

O
Movimento Morar em Lisboa (MML), integrado por mais de 30 associações locais,
ressalta os problemas de habitação que os lisboetas vêm enfrentando em
decorrência do turismo e das políticas adotadas. Os valores de habitação
subiram drasticamente de 2014 a 2017. Houve inflação de 13% a 36% nos alugueis
e de 46% nos valores dos imóveis à venda. Assim, a oferta de locação por longa
duração tem se tornado cada vez mais escassa.



Em
contrapartida, a Rádio Tuk Tuk e Alis Ubbo
anuncia também a tendência crescente da diminuição do número de turistas das
ruas de Lisboa, que estão começando a preferir Turquia e Egito, destinos considerados
mais baratos. Lisboa subiu 44 posições no ranking de cidades mais caras para se
viver (Estudo Global Mercer 2018), assumindo a 93ª posição, superando inclusive
o Rio de Janeiro, que perdeu 43 posições e agora ocupa o 99ª lugar.

* Cristiana Giustino é gestora e produtora cultural