Novo filme do diretor de ’12 Anos
de Escravidão’ chega aos cinemas dia 29 de novembro. Encabeçado pela poderosa
Viola Davis, o thriller abusa das reviravoltas e dos clichês do gênero, mas
aposta na força das personagens femininas e pontua críticas contundentes à
desigualdade racial na América

Marcella Vieira*
widows f01cor 2018110646 Prestes a estrear no Brasil, 'As Viúvas' abriu o Festival do Rio com elenco excepcional e protagonismo feminino
Na maratona do Festival do Rio, muitos cinéfilos
preferem privilegiar os filmes que dificilmente terão vez no circuito de
estreias aqui no Brasil. Por outro lado, muitos títulos passam como relâmpago
pelo evento para, logo depois, chegarem arrasadores nas salas de cinema de todo
o país, já de olho na temporada de prêmios que tem seu ápice no Oscar do ano
seguinte. É o caso de “Infiltrados na Klan”, novo filme de um
afiadíssimo Spike Lee, e “As Viúvas”, que teve sessão única na noite
de abertura do Festival. O Jornal Casa da Gente já conferiu os dois, que têm
estreias previstas no Brasil já nas próximas semanas.
“As Viúvas” é a volta aos cinemas do
diretor Steve McQueen após o super premiado “12 Anos de Escravidão”.
O filme é bem diferente de suas obras anteriores, um thriller que mistura boas doses de drama, violência, perseguições
com carros em alta velocidade e explosões (não deve ser à toa o fato de Liam
Neeson e Michelle “Velozes e Furiosos” Rodriguez estarem no elenco).
Ainda que com certos clichês do gênero – os excessos de reviravoltas e alguns
aparentes buracos na trama –, há algo urgente e essencial no filme: as
excelentes e incrivelmente determinadas personagens femininas.
E nisso o título do filme não engana: as
protagonistas são, realmente, as viúvas de um grupo de criminosos mortos em uma
ação que acabou não dando nada certo. Especialmente três delas, interpretadas
por Viola Davis, sempre uma força nas telas, Rodriguez e a franco-australiana
Elizabeth Debicki, mais conhecida do grande público como a Ayesha de
“Guardiões da Galáxia – Vol. 2”. Mais do que o baque emocional, a
perda de seus maridos significou para elas dívidas e ameaças. Elas então se
reúnem para um último ato, originalmente planejado por seus companheiros.
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O protagonismo feminino atravessa toda a trama, que
às vezes se arrasta, às vezes empolga, mas nunca decola. Parte
muito grande desse protagonismo certamente se deve ao roteiro adaptado, em
parceria com McQueen, por Gillian Flynn. A autora dos sucessos “Garota
Exemplar”, que chegou aos cinemas em 2014, e “Sharp Objects”,
recém-adaptado para a TV pela HBO, constrói mulheres marcadas por muitos
contornos e pela dubiedade de seus atos. Um prato cheio para personagens
femininas interessantes, complexas e fora de estereótipos que marcaram a
indústria do cinema por tanto tempo. Em meio a uma narrativa de caos social em
uma Chicago marcada por eleições, violência e corrupção, o diretor ainda
aproveita para inserir no filme críticas afiadas à desigualdade e à brutalidade
da polícia norte-americana contra os negros (em cenas de flashback que emocionam). Mas são apenas pitadas em um filme que
não foge das clássicas regras de um thriller:
reviravoltas, chantagens, traições e assassinatos.
Um dos méritos de Steve McQueen é reunir um baita
elenco, incluindo atores consagrados em papéis considerados pequenos. Além das
protagonistas e de Neeson como um dos maridos mortos, o filme conta com o
veterano e excelente Robert Duvall e Colin Farrell, como pai e filho Mulligan
que defendem o poder de um clã político que domina Chicago há décadas (com
discursos e atos – públicos e privados – um tanto comuns nas famílias de
políticos, seja lá, seja aqui, seja em qualquer lugar). Os irmãos Manning,
interpretados por Brian Tyree Henry e pelo talentosíssimo Daniel Kaluuya
(indicado ao Oscar de Melhor Ator por “Corra!”), são os novatos que
tentam conquistar o espaço político antes ocupado exclusivamente pelas raposas
da família Mulligan– ainda que por meios nada edificantes. Há ainda Jacki
Weaver, Lukas Haas, Cynthia Erivo (essencial na parte final da trama) e o
“Justiceiro” Jon Bernthal, sempre encarnando o tipo violento e
desajustado, mesmo com participação muito curta.
“As Viúvas” teve sessão única no Festival
do Rio, mas estreia em todo o Brasil, com distribuição da Fox Film no dia 29 de
novembro.
  
*Marcella
Vieira, jornalista, está na cobertura do @Festival do Rio pelo Jornal Casa da
Gente.