Ao todo, 22 famílias foram afetadas pelo acidente; e agora, com a morte do menino Arthur, de apenas 3 anos, sobe para 15 o número de vítimas fatais. Prefeito Rodrigo Neves decretou luto de três dias na cidade, e promete auxílio às famílias atingidas


Por Luana Dias

Atualizado em 10/11/2018, às  18h20 

REPRODU25C3258725C32583O2BTV2BGLOBO2B2 Tragédia no Morro da Boa Esperança: sobe para 15 o número de mortos
O trabalho de resgate no local foi intenso (foto reprodução/TV Globo)

A cidade de Niterói segue acompanhando os desdobramentos da tragédia ocorrida nas primeiras horas da manhã de sábado (10/11) quando 17 casas foram atingidas/interditadas e 22 famílias foram afetadas em decorrência de um deslizamento de rocha e terra, ocorrido de um maciço que se rompeu, no Morro da Boa Esperança, em Piratininga, em Niterói. 
Os trabalhos de resgate foram finalizados por volta das 6h da manhã deste domingo (11), quando foi retirado o corpo da última vítima fatal. Até o período da manhã, haviam sido confirmadas 14 mortes (confira a lista dos nomes), e 11 pessoas resgatadas com vida. O menino Arthur Caetano de Carvalho, de apenas 3 anos, que teve trauma de tórax, e era um dos casos mais graves, veio a falecer no final desta tarde de domingo, no Hospital Estadual Azevedo Lima, totalizando 15 mortes. Arthur havia comemorado com sua família na noite anterior o seu aniversário. A sua irmã mais nova, Nicole, de apenas 10 meses, já era uma das vítimas da tragédia. 

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O prefeito Rodrigo Neves concedeu coletiva na manhã deste
domingo (foto Luana Dias)

O prefeito de Niterói, Rodrigo Neves (PDT), convocou uma coletiva de imprensa, no final da manhã deste domingo (10), no Centro Integrado de Segurança Pública de Niterói, que fica em Piratininga, próximo ao local do incidente. O prefeito estava acompanhado da primeira-dama, e dos representantes dos principais órgãos municipais e estaduais envolvidos na operação. 


Na ocasião, o prefeito destacou o trabalho em conjunto de mais de 200 servidores públicos, que se reuniram também à voluntários, para a megaoperação de resgate. Rodrigo Neves decretou luto oficial de 3 dias (a iniciar neste domingo, dia 11) no município. O prefeito também prometeu prestar assistência às famílias atingidas:
“Além da assistência emergencial, com apoio psicológico, suporte na realização dos enterros, que irão ocorrer no Cemitério do Maruí, nós vamos entregar unidades habitacionais às 22 famílias que tiveram suas casas destruídas ou interditadas, e que se encontram em alto risco após este deslizamento. Estas casas já estavam sendo construídas através de um programa de residências sociais da Prefeitura, e com previsão de entrega das chaves no dia 20 de dezembro. Vamos incluir estas famílias entre os beneficiados”, afirmou.
Até lá, o prefeito disse que as famílias atingidas serão cadastradas no benefício do “Aluguel Social”; os dados foram encaminhados em regime de urgência para a Câmara de Vereadores de Niterói, para que se acelere o processo de liberação.


“O rompimento do maciço era imprevisível”


Ainda segundo o Prefeito Rodrigo Neves, o rompimento do maciço, que ocasionou o deslizamento no morro da Boa Esperança, era imprevisível. 


“Com base nos dados técnicos dos órgãos competentes, não havia contenção de encosta a ser feita, o que tínhamos era um maciço, num local bem no alto da comunidade, uma grande montanha de pedra coberta por mata, então o que houve foi o deslocamento deste maciço, com milhares de toneladas, e que infelizmente caiu nessas casas. Nós trabalhamos em cima de um inventário que foi realizado em 2012, e que foi inclusive usado de base para implantação das sirenes da Defesa Civil, em diversos locais da cidade, nos anos de 2013 e 2014. A comunidade da Boa Esperança não tinha este sistema implantado, exatamente porque não aparecia neste levantamento realizado. Nenhum órgão havia identificado esta área como de alto risco” afirmou o prefeito.


A fala do prefeito foi complementada pelo presidente do Departamento de Recursos Minerais (DRM), Wilson Giozza, que também estava presente na coletiva de imprensa:


“Este acidente aconteceu numa área de baixa previsibilidade, e não tínhamos nenhum estudo identificando esta área como de alto risco. O único estudo que fizemos foi em 2012, para localização das sirenes, onde foram identificadas 42 áreas, não incluído o Morro da Boa Esperança. Estamos trabalhando em conjunto com a Prefeitura e Defesa Civil para atualizar este estudo de 2012, e analisar a situação geral na cidade”, afirmou Giozza.

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Wallace Medeiros, secretário de Defesa Civil
(foto Luana Dias)

Porém, de acordo com um documento apresentado por familiares de uma das vítimas, em Maio de 2010, a Defesa Civil de Niterói havia emitido um laudo assinado por Marcio Romano Corrêa Custódio, na ocasião identificado como subsecretário da Defesa Civil, informando que após um episódio de chuva, a residência da família no local tinha um perigo eminente de deslizamento, indicando interdição do mesmo. 
Naquela ocasião, teria acontecido já um primeiro deslizamento, porém sem vítimas, e por isso houve a vinda da Defesa Civil no local.  
A respeito deste documento, o secretário da Defesa Civil de Niterói, Wallace Medeiros, disse que os deslizamentos monitorados pela Defesa Civil são basicamente co-relacionados a chuvas fortes, e os laudos são provisórios, e normalmente emitidos em situação de baixo risco.
“Independente do sistema de sirenes, durante episódios de chuva forte, a Defesa Civil vai aos locais para avaliar e, se necessário, promover a evacuação da área. É algo provisório, pela precariedade do local. Desta vez, o volume de chuvas não justificaria a evacuação naquela área; por isso, confirmo o que o DRM e o prefeito diz, que não era previsível que acontecesse esta tragédia”, informou Wallace Medeiros.


Foi anunciado também que a Prefeitura, em parceria com o DRM irá realizar um novo estudo para atualizar estes dados. O prefeito agradeceu também a visita ainda ontem ao local do governador eleito Wilson Witzel, e disse que irá solicitar ao Governo do Estado, assim que ele assumir em 2019, a instalação de novas sirenes da Defesa Civil, incluindo três pontos na Região Oceânica da Cidade, o Morro do Bonsucesso, Caniçal e na Boa Esperança. 
  
Solidariedade: mais de 7 toneladas de suprimentos foram recebidos em menos de 24h

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Na Escola Municipal Portugal Neves, toneladas de suprimentos foram doados
(fotos Luana Dias)

Logo após o anúncio do incidente, foi realizada uma grande mobilização via veículos de comunicação e redes sociais, convocando a população a realizar doações de alimentos não perecíveis, produtos de higiene pessoal, roupas, água, colchonetes, tendo como ponto de coleta a Escola Municipal Portugal Neves, que fica há alguns metros de onde ocorreu o incidente. Em menos de 24h, mais de 7 toneladas de mantimentos, e em sua fala, o prefeito agradeceu a mobilização dos niteroienses, e afirmou que já se tem todas as condições de atender às famílias e aos voluntários, não havendo, portanto mais necessidade de receber novas doações. 
No local, ainda na tarde deste domingo, uma enorme fila de carros e de pessoas seguiam em direção ao local para levar as suas doações, que eram recebidas, catalogadas e separadas por centenas de voluntários. 
Além disso, mais de 40 assistentes sociais e psicólogos realizaram o apoio emergencial aos familiares e parentes das vítimas e feridos, no próprio local.


Familiares choram a dor da perda

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Alan e Amanda: casal morreu no incidente

Na comunidade da Boa Esperança, o clima é de tristeza, luto e consternação. Com olhos inchados, e bastante abalada, Marilene da Silva, de 55 anos, era amparada pelos familiares. A frágil e franzina dona de casa perdeu no incidente o filho Alan Ferreira Teles, de 29 anos, e a sua nora, a jovem Amanda Tomaz da Silva, 30 anos. 



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A tristeza de dona Marilene, mãe de Alan
(foto Luana Dias)



Marilene conta que Alan era seu filho mais velho – ela é também mãe de Tainá, 22 anos, Thaís, de 20 anos, e Amanda, de 18 anos. Para viver, ele era “salgadeiro”: trabalhava numa fábrica de salgadinhos, e sonhava, ao lado de sua esposa Amanda – que cursava Psicologia na Faculdade Anhanguera – com uma vida melhor. 
“Nós sabíamos que aquela era uma área de risco. Agora, já não há mais o que fazer. Não tenho nem palavras para externar a minha dor”, afirmou.


Das 15 pessoas vítimas fatais deste incidente, 7 pertenciam a mesma família: eram os “Martins”. Géssica, de 15 anos, Maria Aparecida, 19 anos, Claudiomar, 37 anos, Janete, 53 anos, Marcos, 9 anos, Maria do Carmo, 80 anos, e Beatriz, 18 anos estão sendo velados, e serão enterrados ainda no final da tarde de hoje no Cemitério Maruí, no Barreto, em Niterói.
  

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