Por Luana Dias

65111 10151312565941730 263798932 n Quantos idosos você convenceu a ficar em casa hoje?
(foto Luana Dias/arquivo Jornal Casa da Gente)

Meu pai tem 77 anos, e – apesar de relutar – faz parte da população de idosos cada vez mais crescente no Brasil. Além disso, é hipertenso e tem problemas cardíacos, o que o coloca oficialmente no grupo de
risco de contaminação por coronavírus (e morte). Eu tenho 37 anos; sem doenças
pré-existentes, saudável e em idade “ativa”, ou seja, a princípio,
sou menos vulnerável ao vírus. Por isso, chamo aqui para a conversa outros
adultos que, como eu, possam fazer a diferença na vida de um idoso durante este
período de quarentena.

Segundo os dados da Secretaria
Municipal do Idoso, há 96 mil pessoas maiores de 65 anos vivendo em Niterói,
numa população de quase 500 mil habitantes. Muitos deles vivem sozinhos, ou
acompanhados de seus conjugues – também idosos. Então, é bem provável que na
sua vizinhança ou família tenha algum idoso precisando – e merecendo – atenção
especial neste momento. Em primeiro lugar, para convencer a uma pessoa idosa a
ficar em casa, é necessário duas palavrinhas: paciência e insistência.
Paciência para explicar diversas
vezes – e de diversas formas possíveis – a gravidade do momento, com linguagem
simples, direta e – se possível – fazendo referências próximas à sua realidade.
Um caso suspeito ou confirmado na sua cidade de residência, ou mesmo a duas
quadras de sua casa talvez seja mais eficaz para convencê-lo a se isolar, do
que evocar o número de mortos e doentes na Itália ou na Espanha.
04122013fachadabancosfotomarcossantos0091 Quantos idosos você convenceu a ficar em casa hoje?
Idosos utilizando os serviços bancários
(foto Marcos Santos/USP Imagens)

Agora, vamos ao fator insistência.
Não se engane: manter um idoso quietinho em casa não é tarefa fácil. A maioria
deles são bastante apegados à sua rotina: desde pequenas compras – do pãozinho
fresco ao cabeleireiro – a passeios no quarteirão, cafés, bares, farmácias, banco,
tudo é motivo pra dar aquela “saidinha”. Mesmo sabendo do “perigo”
de contágio, algumas pessoas mais velhas, por viverem sozinhas, não vêem outra
escolha senão, aparentemente seguir normalmente suas vidas. Nestes casos, se a
gente se limitar ir às redes sociais e repetir #fiqueemcasa ou criticar a
atitude dos velhinhos que vemos ainda teimosamente perambulando pelas ruas, não
adianta. Pior ainda se os entupimos de vídeos, fotos e textos por whatsapp,
aumentando a probabilidade de estar espalhando pânico e fake news para esta população.     

Ter em mente as questões de
mobilidade e o perfil psicológico/psiquiátrico de um idoso é também muito importante:
sabemos que com a idade, chegam com mais freqüência problemas de saúde que
levam ao comprometimento das capacidades físicas e/ou intelectuais ou ainda a
distúrbios de comportamento: AVC, confusão mental, Alzheimer, demência,  esquizofrenia, bipolaridade, ou mesmo
ansiedade e depressão, a lista é extensa. Tais sintomas são agravados em
situação de reclusão, então a atenção (e PACIÊNCIA, sempre bom frisar), precisa
ser redobrada. Pais e responsáveis de pessoas com deficiência também devem
estar enfrentando as mesmas dificuldades neste período, mas isso seria assunto
para um outro artigo.
Neste momento de isolamento
social, opte por ações que podem realmente ajudar a manter uma pessoa
idosa em casa: fazer uma ligação, e conversar durante 10 minutos, ou mesmo duas horas – dependendo de sua disponibilidade – com alguém idoso que faz parte da
sua rede de contatos: desde aquela tia de segundo grau, até a sua sogra, passando
pelo vizinho do 1301 – já alivia e faz passar o tempo.
Dispor-se a fazer as compras, ou
ainda ajudá-lo a resolver um problema, evitando que saia de casa – como vimos nos
ótimos exemplos de cartazes e bilhetinhos que viralizaram nas redes sociais –
também é uma ótima iniciativa. Evitando – claro – abraços e beijinhos, e
lembrando sempre de lavar bem as mãos ou usar álcool em gel.
E o mais importante: lembrar que esta
“batalha” é mesmo um dia após o outro: se puder oferecer seu apoio e
atenção de forma constante, ou ainda criar uma rede de afeto e relacionamento
que se reveze, com objetivo de monitorar o idoso, melhor ainda.  
Estes são gestos e
atitudes que podem fazer com que a pessoa idosa consiga controlar sua
ansiedade, mas também afugentar um outro “fantasma” ao qual ela tem muito
medo – talvez mais ainda até do que do coronavírus: a solidão. Daí, o combate mais
eficaz seja feito com ações – pequenas ou grandes – de solidariedade.   

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