Mauro
Romero Leal (especial para o CASA DA GENTE)

Copa 2014 Gabriel Mauro País, Família, Pessoa, Futebol
Dr. Mauro Romero Leal Passos e seu filho caçula Gabriel, de 8 anos
(Foto Acervo Pessoal)

Um país, uma família, uma pessoa se constrói com
vitórias e derrotas. Ambas, vitória e derrota não são definitivas. Ambas são
necessárias. Ambas vão sempre coexistir.
É
a vida. E a vida é para ser vivida. Sofrida. Amada. Como uma mãe que dá luz a
seu filho.

Com ambas, vitória e derrota podemos aprender,
crescer. Se for o nosso desejo.
Um jogo
de futebol, uma Copa do Mundo é muito importante. Mas, não deve ser maior do
que a capacidade e a tranquilidade para consolar uma criança em prantos que
assiste o seu time perder. Não pode ser maior do que o entendimento de que
seres humanos cometem falhas. E que além de apontar falhas devemos criar
condições para as correções. Chutar um cachorro morto pode ser fácil. Querer
uma “selfie” com um famoso que está com uma medalha no peito pode ser mais
fácil, ainda. Todavia, para ser um verdadeiro vitorioso temos que apoiar e
estender a mão para quem sofre uma queda. Para quem está no chão isso não é
esquecido. Para quem deu apoio, uma sensação de felicidade toma conta do
coração e da alma. Faz um bem!

Por outro lado, o sofrimento, o luto, pode gerar
muitos bons frutos. Muitas vitórias. Muitas alegrias.

Certa vez uma paciente me disse: “Eu agradeço
todos os dias por ter contraído HPV. Por ter pego HPV aprendi muito na vida.
Aprendi como falamos e ouvimos coisas erradas…”

De Betinho (Herbert de Sousa) ouvi: “Eu não
queria ter aids, mas já que ela veio eu vou lutar para que outras pessoas não passem
o eu passo. Eu vou transformar esse grave problema em grandes oportunidades”.

Em certo momento da vida, década de 1970, para
ter o meu próprio dinheiro eu fui procurar emprego no comércio. Fui rejeitado
para a função de escrever notas fiscais.

No instante seguinte de ouvir a palavra não eu
me senti o mais incompetente dos jovens. Não consegui um emprego de tirar notas
fiscais.

Em casa, minha mãe falou: “Quem perde são eles,
que não te empregaram”.

Em outro momento, de uma turma de especialistas
em ginecologia fui o único reprovado para ingressar no curso de mestrado. No
ano seguinte, entrei no curso e acabei terminando o mestrado, e o doutorado, na
frente de quase todos os outros da minha turma.

Hoje, sou médico, professor, escritor de livros
médicos, diretor de uma editora de uma universidade federal, editor de um
periódico científico internacional.
Daquelas
e de tantas outras derrotas que tive na vida (e foram muitas) tirei forças,
dedicação para na frente, alcançar novos objetivos.

O Brasil é o país do futebol, de pentacampeões
mundiais, de Pelé…

Da Fórmula 1, de Ayrton Senna, de Emerson
Fittipaldi…

Do Samba, de Cartola, de Adoniran Barbosa, de
Martinho da Vila…

Do Chorinho, de Pixinguinha…
Da Música popular, de Tom Jobim, de Chico
Buarque, de Caetano Veloso…

De Boas músicas clássicas, de Villa-Lobos…
Das Artes, de Fernanda Montenegro, de Paulo
Autran, de Glauber Rocha…

Das Formas, de Oscar Niemeyer, de Cândido
Portinari, de Di Cavalcanti, de Tarsila do Amaral

Das Letras, de Carlos Drummond de Andrade, de
Jorge Amado, de Vinicius de Moraes…

Da Saúde pública, de Oswaldo Cruz, de Carlos
Chagas, de Vital Brazil…

Da Medicina, de Ivo Pitangui, de Eurycrides
Zerbini…

Das Ciências, de Paulo Freire, de Gilberto
Freyre, de Anísio Teixeira, de Cesar Lattes…

Da Aviação, de Santos Dumont…
Da Luta para preservação da natureza, de Chico
Mendes…

Da Preservação dos índios e de sua cultura, de
irmãos Villas Boas…

Da Luta contra a aids, de Betinho…
Do Futevôlei, do futebol de salão, da altinha,
da canga, do frescobol, da jabuticaba, da caipirinha… da floresta amazônica,
pulmão do mundo…

Um país não se constrói com alguns heróis. Os
heróis apenas nos inspiram, para que todos cumpram, com eficiência,
honestidade, liberdade, igualdade, fraternidade, amizade os papéis que
representam em uma sociedade democrática.

O Brasil é país de um povo feliz, que sabe, até,
fazer alegria de suas adversidades. Que sabe aplaudir as vitórias merecidas.

Da liberdade de poder expressar os mais diversos
sentimentos. Para contrapor argumentos. Para ampliar pensamentos.

(Mauro Romero Leal Passos é brasileiro, 60 anos, casado, pai de cinco filhos)
 
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