Uma pesquisa intitulada Neuroinflamação e o Desenvolvimento e Plasticidade do Cérebro desenvolvida pelo professor e pesquisador de Neurociências da UFF, Cláudio Serfaty, juntamente com alunos e ex-alunos de pós-graduação e de iniciação científica, mostram que as crianças não são imunes à COVID-19 e que, embora as complicações sejam raras, elas existem e têm o potencial de impactar no desenvolvimento neural.

A informação refuta as percepções iniciais de que as crianças estariam menos suscetíveis aos sintomas graves da Covid-19. “Alguns pais tendem a subestimar o perigo da doença, principalmente porque não fazem ideia das complicações que podem surgir”, alerta Serfaty.

De acordo com o professor Cláudio, “embora as crianças de até dois anos sejam mais suscetíveis, as consequências da neuroinflamação podem também aparecer após essa idade.Na pandemia de COVID-19, a conjunção de fatores inflamatórios (infecção viral + alterações ambientais) podem constituir um fator de risco para o desenvolvimento de alterações do desenvolvimento neural infantil”.

Riscos a longo prazo

Para a pós-doutoranda Luana Chagas, também participante da pesquisa, as informações produzidas pelo trabalho são ainda mais relevantes considerando-se que “vivemos em um contexto onde a grande maioria da população ainda acredita que crianças são invulneráveis por não apresentarem sintomatologia tradicional imediata. Os possíveis riscos a longo prazo relatados em nosso trabalho ocasionados pela infecção por um vírus que é capaz de atacar o sistema nervoso, na verdade, tornam a criança um alvo ainda mais vulnerável por ela ainda estar com seus sistemas imaturos e pelo vírus ser silencioso, já que elas infectadas são assintomáticas”, ressalta.

Apesar do alerta, o neurocientista leva uma mensagem de tranquilização para os pais. Ele afirma que o desenvolvimento do cérebro é longo e, principalmente na primeira infância, o cérebro se recupera de forma surpreendente a várias formas de agressão: “então, basta cuidar e prevenir. Nenhuma condição deve ser encarada como permanente. O cérebro infantil é plástico e consegue se adaptar e compensar as adversidades. No entanto, não devemos dar chance às condições adversas!”.

Para a pós-doutoranda, o grande desafio trazido por todo esse cenário é enxergado como oportunidade. “Atualmente, o combate contra o negacionismo só fez a ciência crescer. Quanto mais negam os fatos, mais estratégias nós desenvolvemos para disseminar os dados científicos; criamos mais páginas e redes sociais de divulgação. Cientistas são evidenciados e se adequam para transmitir a informação de uma maneira mais acessível para se explicar um assunto de difícil entendimento e desmentir muitas inverdades disseminadas. O maior desafio acaba sendo o de desenvolver estratégias cada vez melhores e de maior alcance para levar informação científica para além das bancadas de laboratório e da universidade. Do ponto de vista da saúde mental e da perseverança, acho importante nos mantermos otimistas, crédulos e atentos ao que a ciência tem a nos dizer, pois dela costumam vir alertas para se prevenir problemas piores ou soluções para os já problemas existentes”, finaliza.

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